Caminho de Kumano – Japão – Nov/Dezembro 2009

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by supi on outubro 20, 2011

OH MARIA CONCEBIDA SEM PECADO ROGAI POR NOS QUE RECORREMOS A VOS. AMEM.

Saí de Genebra no dia 27 de novembro, dia da “Medalha Milagrosa”. Para começar essa segunda peregrinação ao Caminho de Kumano.

Fiz escala em Amsterdam. Antes de chegar ao aeroporto, vi vários arcoíris no céu. Digo vários, porque primeiro vi dois pequenos e um completo, lindo, com outro por fora, eram duplos. Pensei que isso era um ótimo presságio para essa viagem. Em Amsterdam, iria encontrar Orietta Prendin, que estava vindo de Veneza e Stella Pelissari de Paris.

Orietta é hospitaleira do Caminho de Santiago em Viloria de Rioja (também representante da Associaçao Cultural Jacobea “Paso a Paso”), e veio me acompanhar para me ajudar em todo o trabalho, já que ela participou do meu processo Caminho Peregrino e sabia as melhores formas de como fotografar, filmar, me ajudar a desenterrar os quadros, limpá-los para por nas molduras e montar a exposição. Realmente era um trabalho grande para nove dias.

Stella é uma jornalista brasileira que mora em Paris. Alguns dias antes eu tinha ido a Paris para a exposição no Grand Palais e nesse mesmo dia, fiz uma entrevista com ela para uma revista brasileira chamada Versatille. No meio da entrevista eu contei que iria ao Japão e ela disse que o sonho dela era conhecer este país. Eu disse, porque você não vem, então? São justamente dessas iniciativas que nascem os grandes encontros e momentos.

Chegamos ao Japão dessa vez por uma porta diferente, Osaka. Brad nos esperava no aeroporto e fomos diretos para Tanabe.

Nessa noite jantamos com Yasuyuki Urano, Chefe do Escritório de Turismo de Tanabe City para a promoçao do Caminho de Kumano, Brad Towler, Diretor Internacional de Turismo e Desenvolvimento do mesmo escritório, sua noiva Miro, e Noriko Furukubo, assistente de Yasuyuki Urano.

Ante de chegarmos a Tanabe, passamos por Wakayama, para comprar o material necessário para fixar e interromper a interferência da natureza nos quadros. O Japão é realmente único, muito feminino e delicado.

Viajei também nessa loja!

Dia 29 de novembro
Começamos a nossa grande peregrinação aos lugares que eu tinha deixado os quadros há mais de nove meses atrás.

O primeiro foi ao lado do Nakahechi Art Museum, em Bijutsu-Kan.

Lá eu havia deixado três quadro: os Hibiscos, Três flores Azuis, e Caminho. Fiquei muito assustada quando vi que o primeiro quadro que retirei (Hibiscos), estava praticamente destruído, mas não desanimei e conservei o sorriso. Mais tarde, soube, que esse local era anteriormente um campo de plantação de arroz, isso explicava a grande umidade.

Os outros dois quadros foram recuperados mas, um deles se reduziu a um pequeno pedaço (Três flores azuis).

Depois encontrei a diretora do museu que tinha sido a “guardiã” desses primeiros trabalhos e dei-lhe o meu livro “Caminho Peregrino”. Partimos então para o Café Bocu, onde meus quadros ficaram enterrados na horta do restaurante biológico.

Foi uma grande emoção encontrá-los. Tinha ficado com medo de não poder fazer a exposição, além disso, já tinha encomendado todas as molduras, e também tinha sonhado com o Monthy Shadow (um amigo), que me dizia:

- Como você manda fazer as molduras antes de saber se vai encontrar os quadros?

O quadro chamado Girassol estava lindo, os demais Bocu I e Bocu II também, Flores azuis com Folha, estava ali perfeito me esperando, com o mágico toque da natureza. Meu sorriso dessa vez não foi forçado.

Terminado o trabalho almoçamos no Café Bocu, uma comida que só no Japão sabem fazer, maravilhosa!

Seguimos para Miharashidai, passando por uma floresta de árvores enorme, subimos até o topo da montanha de onde avistamos o maior Portal do mundo, Oyunohara na cidade de Hongu.

Lá eu havia deixado três quadros: Ideogramas e Hortência.

E desde ali fomos para o quarto lugar para recuperar as telas, na Montanha de Yamabushi.

Lá eu tinha enterrado O Fogo, A montanha, Flores Azuis e A Dália, que foi dada em oferenda ao templo de Hongu.

Agora vinha a parte mais difícil: recuperar e emoldurar as telas.

Era um trabalho que necessitava paciência, pois a secagem não dependia de mim.

Fomos instaladas numa grande sala, no antigo prédio da prefeitura de Hongu, tínhamos uma mesa enorme e ali começou todo o processo. Como de costume, pensei: “não vou fazer mais isso de desenterrar e montar a exposição ao mesmo tempo. É muito desgastante! Não sabemos como vai ser o resultado e me arrisco muito. Imagina se os quadros são irrecuperáveis, ou não secam a tempo”. Milhões de coisas passavam pela minha cabeça. Mas, no Japão eles têm um time para tudo, nós brasileiros iríamos ficar sem comer, virar noite e se stressar.

Lá não, lá é muito diferente. Acordávamos cedo, trabalhávamos até a hora do almoço, saíamos para comer e depois voltávamos para mais trabalho até as sete da noite, fazíamos um pequeno intervalo para um chá com doces tradicionais (que eram verdadeiras delícias, além de serem um encantamento para os olhos). Depois dessa jornada, Stella e eu ainda íamos para o nosso programa favorito: os banhos japoneses. Que delícia!!! Todos os dias a água tinha uma temperatura muito elevada, pois são águas vulcânicas. Em odos os dias fez uma temperatura agradável, mesmo sendo o final do Outono, ainda tinha muito sol.

A gentileza das pessoas e a cultura, só existem dessa maneira no Japão.

Quando os quadros estavam todos montados, e para finalizar o trabalho só faltava fazer as fotos em alta resolução, os japoneses nos deram outro show de profissionalismo. Montaram um estúdio como eu nunca havia visto igual, precisávamos fotografar os quadros de cima e depois de darmos a idéia de colocar uma escada, até um andaime foi alugado para garantir o melhor resultado possível.

Agora só faltava a montagem da exposição. O resto estava pronto: os quadros emoldurados e devidamente fotografados e os porta-retratos digitais que contam o processo do trabalho já em funcionamento.

Tivemos um dia livre, nesse dia choveu. Mas não chegou a ser um problema, pois conseguimos ver de outra maneira a paisagem e escutar as histórias que Brad nos contava.

Antes de eu ir para o Japão, tive um sonho, um sonho com o pequeno, era uma criança. Eu estava com a Paula, minha sobrinha, e ela me mostrava o pequeno. Ele era uma criança que estava entre dois rapazes. Logo pensei em São Cosme Damião e em Doum.

Foi um sonho muito forte. No final de todo trabalho, o Brad me falou que como eu tinha colocado o meu trabalho na terra e ela me devolvia, eu deveria fazer uma oferenda no templo. Logo me lembrei da minha primeira ida ao Japão, para enterrar os quadros, lembrei que tinha visto um deus criança e nesse mesmo local tinha um pequeno templo onde as pessoas deixavam doces, brinquedos, balas, tudo relacionado à criança. Pensei eu fazer minha doação neste templo.

Contei isso ao Brad, que me informou que esse templo pertencia à outra cidade e não a Hongu. E a oferenda deveria ser dada ao Deus de Kumano Hongu Taisha, no templo onde os peregrinos chegam ao final da peregrinação.

Mas, quando estávamos fazendo esse passeio neste dia chuvoso, Brad começou a contar de um Monge que havia sonhado com 99 crianças e depois disso ele havia se iluminado. E que sempre que se sonhava com crianças, o sonho estava ligado a esse lugar de peregrinação e a este Deus. No fim tudo se encaixava!

Neste mesmo dia também estivemos em um local do Caminho de Kumano que era o equivalente ao Monte do Gozo no Caminho de Santiago (o Monte do Gozo é o local onde o peregrino enxerga pela primeira vez as torres da Catedral de Santiago, e relaxa e se regozija, daí o nome). Neste local do Caminho de Kumano se avistava o Portal de Hongu, Oyunohara.

Brad também contou a história de uma peregrina, que estava no seu período menstrual, e que antigamente no Japão as mulheres eram consideradas impuras quando estavam nesse período. Por isso, ela não poderia entrar no Taisha em Hongu. Foi quando, na mesma noite, ela teve um sonho com a divindade de Kumano. Nesse local existe um Oji, é pequeno Deus daquele local: os Oji na tradiçao shintoista são pedaços do Deus maior, como se fossem filhos Dele, estão espalhados pelo Caminho, protegem os peregrinos e normalmente são representados por pedras.

Ela sonhou que poderia entrar no Taisha, e isso foi um sinal que mostrava que todos poderiam entrar nesse local sagrado, independente de ser mulher e estar menstruada. Nesta ocasião ela também fez a seguinte poesia:

Debaixo do céu claro, o meu corpo
Obscurecido por nuvens a deriva.
Entristece-me que minha obstrução mensal começou.

À noite, a divindade de Kumano apareceu pra ela e respondeu:

Como poderia,
O Deus que se mistura ao pó,
Sofrer por causa de sua
Obstrução mensal?

Mas ainda hoje em dia, existem templos no Japão em que as mulheres não podem entrar.

Montamos a exposição no dia seguinte e no sábado dia 5 de dezembro foi a abertura.

oi com grande alegria que terminamos esse trabalho, e a próxima etapa foi a oferenda no templo Kumano Hongu Taisha, uma maravilha de lugar que tem a seguinte história:

“Oyunohara é um antigo local sagrado localizado em um delta na confluência dos rios Kumano e Otonashi. Era o local original do Grande Santuário “Hongu Kumano Taisha” e acredita-se ser um “Yashiro”, um lugar sagrado onde deuses desceram em tempos pré-históricos. Em 1889 uma enorme enchente destruiu grande parte do complexo do santuário e os materiais recolhidos foram usados para reconstruir o pavilhão no seu local atual. Dos edifícios originais, apenas três foram reconstruídos. A entrada para Oyunohara está agora marcado pelo “Torii”, o maior portão santuário do mundo, com 34m de altura e 42m de largura. Todas as rotas de peregrinação do Caminho de Kumano levam a essa serena e mística clareira.”

A cerimônia foi belíssima, comecei lavando as mãos para me purificar, depois vesti um quimono branco e entramos no templo de oferendas. Brad ia fazendo a tradução. Foi muito emocionante e mágico. Antes passei por um ritual de purificação, que era feito com um longo móbile de papel branco, ou pelo menos assim me parecia. Sons chegavam a mim através das paredes de papel, pareciam sinos e palmas que me transportavam para outra dimensão.

Quando saí do templo escrevi um cartão para o Paulo, pois ele era a primeira pessoa com quem eu gostaria de compartilhar esta mágica experiência. Lá existe uma caixa de correio com um pássaro que é o símbolo de Kumano. Ele tem três patas que representam: o Céu, o Homem e a Terra. E essa caixa de correio é também o símbolo da união dos Homens e dos Povos. Tudo muito profundo.

Depois tomamos um chá com o monge que conduziu a cerimônia e ganhamos vários presentes, o que é uma tradição japonesa. O monge era muito iluminado, seu nome era: Ietaka Kuki.

Foram nove dias de muito trabalho para o corpo e também para a alma, voltei exausta e muito satisfeita. Espero ter outras oportunidades de voltar a esse lugar tão maravilhoso que é o Japão.

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