Sempre trabalhei com os signos do feminino, no inicio de maneira inconsciente. Sempre utilizei os signos de nutrição da vida, da fecundidade, da espiritualidade maternal, e do universo feminino. Isso pode ser constatado nas minhas exposições como “O Círculo e o Ponto, o Ponto e o Círculo”; “Carregador de Pérolas”; “Maison du Temps”; “Nascida de Venére” e em muitos outros trabalhos que desenvolvi.
Quando fui morar nos Pirineus, a princípio não tinha espaço para um atelier, pois morava num hotel. E nessa ocasião tinha uma exposição em Paris e necessitava pintar grandes telas. Comecei então a levá-las para o campo, e percebi que uma folha caiu e coloriu na tinta, e isso me agradou.
Nessa época tinha comprado uma tela de dez metros, foi nesse momento que surgiu as “Quatro Estações”, uma tela que levei pra floresta e ia desenrolando e pintando conforme as estações, e ia sempre cobrindo com a terra, galhos e pedra. Paralelamente quis ampliar esse projeto, deixando outras telas nos leitos secos de rios que depois vieram a ser cobertos por água; em volta das árvores e etc.
Como sou uma peregrina por natureza, inclusive fiz o Caminho de Santiago em 1990, senti que o meu trabalho tinha que sair das quatro paredes do atelier. Eu me fiz sócia da natureza, e o meu trabalho passou a receber sua impressão digital.
Creio que é uma poderosa parceria, quando vou retirar um trabalho, seja onde for, na Amazônia, nos Pirineus ou no Caminho de Santiago, sempre me emociona o que a mão invisível da natureza fez com os meus originais.
Acho que é uma arte inimitável e única, em cada caso o arbítrio das águas e dos ventos e o mistério das pedras e da terra interagem de uma forma única sobre o meu trabalho.
Muitas vezes trago o quadro pronto para ser colocado na terra, outras vezes uso materiais do próprio local como foi o caso das flores da primavera no Caminho de Santiago, o vento e o mar em Sète. Eu faço a minha parte do trabalho e depois ele regressa à terra, cumpre um período telúrico de gestação e então é retirado.
Trabalhar com o “Tema” é para mim trabalhar com o sagrado, a Grande Mãe, a Imaculada Conceição.
Ele é como uma semente que vai se transformar. O produto final de tudo isso é muito importante para mim. Apesar do Caminho de Santiago ter ficado com dez quadros, a Amazônia e os Pirineus ficaram com um cada, para mim não é só o aspecto visual, mas toda a energia que envolve essa transformação.
No Caminho, comecei a trabalhar com metais, quero cada vez usar materiais mais e mais resistentes, é ainda um começo, precisamos esperar o tempo para ver os frutos que darão.
Trabalhei com o cobre, não por acaso, há séculos atrás os alquimistas usavam o símbolo ♀ que também representa o Planeta Vênus, a Deusa Grega Afrodite e o gênero feminino para representar este metal.
13/05/08
Enterramento
Desenterro
17/05/08
Desenterrei o coração e outros quadros no cebreiro.
13/06/08
No caminho para Santiago paramos num lugar muito especial: era um vale que dizem ser sempre visitado por discos voadores. Lá mora um Alquimista que trabalha com pedras e a energia que emana delas.
Ele tritura pedras da região e de várias partes do mundo fazendo disso seu trabalho.
Dizem que foram seres de outros planetas lhe passaram essa técnica.
Fiquei impressionada com a beleza das cores e acabei ganhando uma certa quantidade daquele pó que era trabalhado por ele. De volta, muitos foram os pedidos para que desse um pouco daqueles pós coloridos e de diferentes texturas. Tinha dourado, prateado, rosa, vermelho, verde etc.
Era uma riqueza.
Fiquei toda entusiasmada para que quando chegasse em Santiago pudesse fazer um trabalho excelente com esse material.
Chegando a Santiago pensei em comprar caixinhas para guardar o lindo pó mineral.
Fiz uma compra considerável de lindas caixinhas e deixei tudo arrumado para o dia seguinte enterrar os primeiros quadros em Santiago de Compostela.
Apesar de ter trabalhando vários dias seguidos e ter dirigido mais de mil quilômetros, aquela noite não conseguia fechar os olhos. Quando olhei o relógio e percebi que já eram cinco da manha, tive a impressão intuitiva de que aquelas pedras portavam uma energia diferente, não eram feitas para o meu trabalho, mas para o do alquimista.
Abri a porta do quarto e deixei as caixinhas do lado de fora. E quando entrei, imediatamente dormi.
Caminho 13 junho de 2008 – Claustro da Faculdade de Geografia e Historia
Foi a minha chegada em Santiago. Nao poderia dizer que seria o final de uma peregrinacao, porque teria que deixar as terra trabalhar os meu quadros e voltar para desenterra-los.
Foi no claustro emblemático da Faculdade de Geografia e Historia que deixei nesse dia uma tela e uma placa de cobre. Decidi traze-los em branco e deixar as formas do passado penetrarem no suporte. Pois quantas historias se passaram por aqui !
E foi com grande emoção e a benção de Santiago e da Virgem Maria que nessa manha foi deixado meu trabalho para que essa terra os abrigue.
Deixei uma tela e uma chapa de cobre.
Logo em seguida fomos para o Monte do Gozo. Um ponto muito forte do Caminho de Santiago.
La é o local onde os peregrinos que estão vindo de varias partes podem vislumbrar pela primeira vez a catedral de Santiago. E todos sentem uma sensação de júbilo.
La deixei uma placa de cobre e duas telas, e Angelo e Edinho nos ajudaram.
