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- 1999: Fio das Contas e Carregador de Pérolas
- 1998: O Círculo e o Ponto, O Ponto e o Círculo


Jornal do Brasil - Coluna Elvira Vignas
02/12/2004

Experimento e Perigo

As imagens originais, documentadas por fotos, não têm nada de arte. São bocas, corações, flores, o sol com raios. Um convencional sem sustos, alegrinho, característico da publicidade, dos produtos de consumo. São as imagens que nos cercam em qualquer lugar que estejamos, quase pornográficas na sua ausência de diálogo, no utilitarismo imediato e raso. Quer um coração? Ei-lo. Uma boca? Aqui está. Igual. Em série. Feitas para acalmar. Mas não é tranqüilizador o que a Casa França-Brasil oferece na exposição As quatro estações, de Christina Oiticica.
Pelo contrário.
As imagens originais foram enterradas pela artista há cerca de um ano. E agora desenterradas. Christina Oiticica inventou uma espécie de mercado de futuros para seus produtos. Aqui também há uma entrega total. Mas não às leis do mercado e sim às leis do tempo. Mais previsíveis estas do que aquelas, as telas estragaram.
E quem entra pelo pesado portão da nossa ex-alfândega (o prédio da França-Brasil) se vê cercado por um pós-capitalismo aos farrapos. Muito apropriado. Das mercadorias do porto ao lado só ficaram as pedras lá colocadas por Grandjean de Montigny em 1819. Dos símbolos do consumo pintados por Christina Oiticica ficaram só vestígios redesenhados por raízes, rachaduras. Não é a primeira vez que ela pinta uma coisa e expõe outra. Suas imagens anteriores, de tipos femininos (negras, índias), de pérolas, vestidos velhos, anjinhos ou personalidades da mídia como Madre Tereza e Joana d'Arc, vendiam um suposto e idealizado ''universo feminino''. Mas, como esta de agora, já falavam do tempo neste seu muito pessoal registro: o tempo versus o consumo, o tecnológico, o que se pretende rápido e fácil.
Um dos dois não resiste. E não é o tempo.
Formada em desenho industrial pela Escola de Belas Artes e em arquitetura pelo Bennett, Christina tem dentro de si o conceito de que arte se aplica e se vende. Acaba de fazer camisetas para uma loja de modas (veja matéria acima). Já fez ímã de geladeira e caixa de baralho. Não teve contato praticamente nenhum com o primo Hélio Oiticica, famoso por sua recusa ao mercado.
Pode-se pensar que o resultado anticapitalista desta sua exposição se dá à sua revelia.
Não.
Perguntada se fica ansiosa com o resultado do enterramento - em florestas, rios e galerias pluviais urbanas - ela responde que o resultado, seja qual for, sempre é bom porque ela quer que seja assim, do jeito que for. O seu vocabulário é outro, é o dos mitos e ritos: terra, natureza, início. Mas ao aceitar a parceria do que passa - insetos ou chuva - para a feitura de suas imagens não autorais, de massa, Christina Oiticica acabou por apontar justamente sua contingência - a dela e a de suas imagens. O que é uma transcendência.
Pastoras são jogos americanos de plástico destruídos. A tela principal, a instalação de solo Quatro estações, tinha 10 metros, hoje tem apenas nove. O outro virou pó. Rosa ficou tão fina, depois que a tela por trás da tinta acrílica desmanchou, que só se sustenta envidraçada. Bocas são 30, exatamente iguais, mas vão ficando irreconhecíveis de tanta terra, raízes e mudanças de cor que sofrem no processo. Leques viraram manchas de umidade abstratas. Invernos trazem resíduos de folhas velhas ao lado de folhas pintadas de prateado, lugar-comum da representação romântica de folhas velhas.
Esta exposição começou por acaso. Christina Oiticica morava em um hotel e precisava preparar uma encomenda já agendada. O cheiro da tinta incomodava os outros hóspedes, não havia lugar para esticar telas. Ela foi para o bosque ao lado. Era outono, paineiras largavam painas na tela. Ela resolveu aceitar.
Experimento e perigo têm o mesmo radical, per.
Christina Oiticica. Casa França-Brasil: Rua Visconde de Itaboraí, 78, Centro. De terça a domingo, de 12 às 20 h.




Veja também

   - As Quatro Estações
Imprensa:
   - Revista Chiques e Famosos
   - Revista Flash
 


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