Exposições
- 2007: Caminho Peregrino
- 2006: Inf'action
- 2005: Caminhos Revividos
- 2004:
As Quatro Estações - 2003:
Exposição Virtual Sinais - 2003:
48º Salon Montrouge - 2003/2002:
Caminhos Recolhidos: Época Galeria de Artes e Museu Nacional de Belas Artes
- 2001: Galerie Lafayette -
2001: Parcours, Récoltes
- 2000: La Maison Du Temps
- 1999: Fio das Contas e Carregador de Pérolas
- 1998: O Círculo e o Ponto, O
Ponto e o Círculo |
Jornal do Brasil - Coluna Elvira Vignas 02/12/2004
Experimento
e Perigo As
imagens originais, documentadas por fotos, não têm nada de arte.
São bocas, corações, flores, o sol com raios. Um convencional
sem sustos, alegrinho, característico da publicidade, dos produtos de consumo.
São as imagens que nos cercam em qualquer lugar que estejamos, quase pornográficas
na sua ausência de diálogo, no utilitarismo imediato e raso. Quer
um coração? Ei-lo. Uma boca? Aqui está. Igual. Em série.
Feitas para acalmar. Mas não é tranqüilizador o que a Casa
França-Brasil oferece na exposição As quatro estações,
de Christina Oiticica. Pelo contrário. As imagens originais foram
enterradas pela artista há cerca de um ano. E agora desenterradas. Christina
Oiticica inventou uma espécie de mercado de futuros para seus produtos.
Aqui também há uma entrega total. Mas não às leis
do mercado e sim às leis do tempo. Mais previsíveis estas do que
aquelas, as telas estragaram. E quem entra pelo pesado portão da nossa
ex-alfândega (o prédio da França-Brasil) se vê cercado
por um pós-capitalismo aos farrapos. Muito apropriado. Das mercadorias
do porto ao lado só ficaram as pedras lá colocadas por Grandjean
de Montigny em 1819. Dos símbolos do consumo pintados por Christina Oiticica
ficaram só vestígios redesenhados por raízes, rachaduras.
Não é a primeira vez que ela pinta uma coisa e expõe outra.
Suas imagens anteriores, de tipos femininos (negras, índias), de pérolas,
vestidos velhos, anjinhos ou personalidades da mídia como Madre Tereza
e Joana d'Arc, vendiam um suposto e idealizado ''universo feminino''. Mas, como
esta de agora, já falavam do tempo neste seu muito pessoal registro: o
tempo versus o consumo, o tecnológico, o que se pretende rápido
e fácil. Um dos dois não resiste. E não é o tempo.
Formada em desenho industrial pela Escola de Belas Artes e em arquitetura
pelo Bennett, Christina tem dentro de si o conceito de que arte se aplica e se
vende. Acaba de fazer camisetas para uma loja de modas (veja matéria acima).
Já fez ímã de geladeira e caixa de baralho. Não teve
contato praticamente nenhum com o primo Hélio Oiticica, famoso por sua
recusa ao mercado. Pode-se pensar que o resultado anticapitalista desta sua
exposição se dá à sua revelia. Não. Perguntada
se fica ansiosa com o resultado do enterramento - em florestas, rios e galerias
pluviais urbanas - ela responde que o resultado, seja qual for, sempre é
bom porque ela quer que seja assim, do jeito que for. O seu vocabulário
é outro, é o dos mitos e ritos: terra, natureza, início.
Mas ao aceitar a parceria do que passa - insetos ou chuva - para a feitura de
suas imagens não autorais, de massa, Christina Oiticica acabou por apontar
justamente sua contingência - a dela e a de suas imagens. O que é
uma transcendência. Pastoras são jogos americanos de plástico
destruídos. A tela principal, a instalação de solo Quatro
estações, tinha 10 metros, hoje tem apenas nove. O outro virou pó.
Rosa ficou tão fina, depois que a tela por trás da tinta acrílica
desmanchou, que só se sustenta envidraçada. Bocas são 30,
exatamente iguais, mas vão ficando irreconhecíveis de tanta terra,
raízes e mudanças de cor que sofrem no processo. Leques viraram
manchas de umidade abstratas. Invernos trazem resíduos de folhas velhas
ao lado de folhas pintadas de prateado, lugar-comum da representação
romântica de folhas velhas. Esta exposição começou
por acaso. Christina Oiticica morava em um hotel e precisava preparar uma encomenda
já agendada. O cheiro da tinta incomodava os outros hóspedes, não
havia lugar para esticar telas. Ela foi para o bosque ao lado. Era outono, paineiras
largavam painas na tela. Ela resolveu aceitar. Experimento e perigo têm
o mesmo radical, per. Christina Oiticica. Casa França-Brasil: Rua Visconde
de Itaboraí, 78, Centro. De terça a domingo, de 12 às 20
h.
Veja também
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