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Casa
França-Brasil - Rio de Janeiro 08/12/2004 à 23/01/2005 Por Christina Oiticica
Normalmente, as coisas não acontecem no plano consciente, elas acontecem no plano inconsciente. Faz parte do universo, do percurso do homem, ir em busca do abrigo e da segurança, um lugar que ele identifique. E o meu trabalho acaba refletindo tudo o que ele conhece e identifica. O meu trabalho é o inverso do percurso do homem.
Sai de casa, da Nós, humanos, lidamos com o espaço. Podemos nos locomover, somos livres no espaço. O vegetal lida com o tempo, ele tem uma existência muito maior. Ele é livre no tempo. Ele é capaz de interromper a germinação da semente, o que no fundo é uma gravidez interrompida, para germinar num momento propício. Quando deixo meu trabalho nos campos, nas florestas, nos leitos de rios, ele não somente capta o elemento físico, espacial, mas o elemento energético. Quando ele está na natureza, vai se identificando, e ela vai reagir a esse corpo. A proposta do meu trabalho é ir além das quatro paredes que o protegem, e de usar o espaço e ir além. Ir além e ser afetado pelas condições do tempo, pelas circunstâncias, como dizia Ortega y Gasset. No ciclo de um ano, onde a natureza vai trabalhando junto comigo; seria uma parceria com a Imaculada Conceição, a terra, que ajuda a trabalhar o corpo ali presente, ajudando na transformação do trabalho como se fosse uma semente, que no final de um ano vai me dar o fruto. A Arte Desentranhada
Da mesma maneira que a obra, no artista, emerge das suas profundidades, a obra de Cristina Oiticica, ou pelo menos uma parte dela, regressa à terra e depois dela é retirada cumprido um período de telúrica gestação. A natureza se faz, assim, sócia de Cristina e cada obra recebe, de alguma forma, uma impressão digital da própria natureza. Poderosa parceria essa entre o artista e a natureza. Os resultados surpreendem. É como se a mão arbitrária dos elementos completasse a intenção original da artista, trazendo à obra uma especial densidade e singularidade Cristina Oiticica ao desenterrar suas obras deve surpreender-se, ela mesma, com aquilo que a mão invisível da natureza fez com seus projetos originais. O resultado final dessa extraordinária parceria é uma arte literalmente inimitável porque em cada caso o arbítrio das águas e dos ventos e os mistérios das pedras e da terra interagiram de forma única sobre a matéria criada. As próprias vísceras desta nossa velha casa serviram de leito para uma das obras que aqui serão mostradas. Ao emergir trará a marca de antigos sedimentos da cidade do Rio de Janeiro, nos quais mergulhou e de onde depois emergiu. Não a vi ainda, ressuscitada,
e reconhece-la será uma surpresa adicional que nos promete a arte de Cristina
que mexe mundos e fundos para nos encantar.
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