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Trabalhos em desenvolvimento - Caminho de Santiago - Sète |
Quatro Tempos - Festival de Performance de Sète
Mas nunca me tinha vindo a idéia de trabalhar, numa mesma tela, os quatro elementos. No primeiro momento pensei em trabalhar com a água do canal de Sète. Como já havia desenvolvido um trabalho efêmero com quimonos em leitos de rios, sabia que só uma tela extremamente resistente poderia resistir a corrosão da água salgada. Comprei assim uma tela sintética de 3 metros por 1 metro e meio. Portanto as autoridades da cidade se opuseram a minha idéia de deixar a tela exposta embaixo d’água em fios de pescadores durante o festival. Eu estava no Caminho de Santiago quando fiquei sabendo desta decisão e foi por causa dessa obstrução que me veio a idéia de trabalhar os quatro elementos no mesmo trabalho, me dedicando a um elemento por dia. Queria que o local deixasse sua impressão no trabalho e como Sète é um porto, eu queria muito desenvolver uma parceria com a água marítima. Decidi assim, no primeiro dia do Festival, compor o quadro com as ondas. No segundo dia, desenhar com o fogo de velas; no terceiro dia tirar os excessos com o vento e, no quarto dia, plantar minha tela por um ano. Apesar de ter feito algumas experiências prévias com os quatro elementos, eu estava mais familiarizada com a terra. Nos Pirineus a terra deixou suas marcas de maneira sutil, as quatro estações impregnando a tela gradativamente. Já na Amazônia, floresta impenetrável, a terra se apoderou dos quadros. No meu trabalho das Quatro Estações, privilegiei o tempo da terra. Coloquei a maior parte de minhas telas em florestas mais também fiz a experiência de trabalhar com os outros elementos: deixando, por exemplo, um quadro no leito de um rio e outro exposto num tronco de arvore. Houve quadros na Amazônia que deixei na terra, mais como houve uma inundação no local, eles ficaram totalmente submergidos por mais de oito meses. Os quadros se transformaram completamente nesta parceria. Aprendi que com o elemento da água os resultados são muito mais inesperados do que com a terra. Os quimonos que havia deixado em leitos de rios por exemplo sumiram por completo, ou levados pela correnteza ou devorados pelo rio. O tempo da água é o tempo do esquecimento. O TEMPO DA ÁGUA Ao chegar em Sete eu havia somente trabalhado com águas de rios, nunca com o mar. Como sempre antes de percorrer um caminho novo, nós temos tendência a tentar planejar, como se pudéssemos realmente prever como as coisas iram acontecer... Antes de ir a Sète eu tinha preparado a tela me inspirando de uma técnica japonesa para tingir tecidos. Essa técnica consiste em prender sacos de pano com pigmentos no tecido e deixar que as correntezas de rios passem tingindo-o. Eu decidi costurar na tela folhas esqueletizadas duas a duas como se fossem uma bolsinha. Ao chegar a beira-mar minha intenção era por os pigmentos e deixar que as ondas desenhassem a tela. Porém o que não havia previsto era que a maré estava alta. Tive que pular uma mureta e descer até o mar pelos rochedos. Havia somente uma pequena faixa de areia protegida por dois blocos de pedras. As ondas batiam com muita força e quando comecei a colocar o pigmento dentro das folhas, notava que o mar vinha e levava tudo, as folhas e o pigmento, lavando assim a tela. Fui percebendo que meu plano inicial de deixar as ondas desenhando a tela era impossível. Foi aí que comecei a travar meu combate, segurando a tela e tentando fixar o pigmento. Era como se nada em volta existisse, somente o mar a tela e eu. Comecei a jogar os pigmentos diretamente na tela, não usando mais os saquinhos de folhas esqueletizadas, mas o mar vinha rápido demais deixando somente um leve vestígio de cor. Como eu tinha pigmentos em barra, comecei a desenhar com eles, e o efeito foi surgindo. Depois fixei a tela nos rochedos e comecei a usar as barras de pigmento como um carimbo. Eu vi a tela se transformando e num determinado momento, senti que era o momento de parar, a tela tinha que descansar. Trouxe-a um pouco mais pra cima, aonde o mar não batia tanto, e sentei-me ao seu lado. Senti que éramos parceiros: o mar, a tela e eu. Fiquei contemplando o horizonte quinze minutos, e quando deu seis horas fiz minhas orações. O CAMINHO DA ÁGUA É O FOGO As onze horas da manha do dia seguinte fui levada ao cimo do Monte St. Clair ao lado da Capela de Nossa Senhora da Salete. Foi lá no alto que travei minha experiência com o fogo. Depois de falar com o padre e dele abrir o portão do terreno que fica ao lado da capela, estendi a tela no chão, peguei as velas e comecei o trabalho. Logo no inicio o fogo caiu e fez dois buracos na tela e eu senti que esse não era o caminho. Comecei a me concentrar e pouco a pouco fui entrando em comunhão com esse elemento. Ao contrario do mar, que exigiu de mim uma batalha, o fogo me levou ao recolhimento. As gotas das velas choravam, deixando suas marcas em silencio. Notei que haviam grandes pedras no terreno e decidi pôr a tela encima de um grande rochedo e deixar que as gotas fossem trilhando seu caminho. Depois deixei-as cair sobre a tela e esses dedos de fogo ficaram queimando por algum tempo. Eu orava enquanto trabalhava e o fogo dançava perante meus olhos, trazendo lembranças. Eu conheço a imagem de Nossa Senhora da Salete desde pequena. Me intrigava ver a imagem dessa santa sentada, com as mãos cobrindo o seu rosto em prantos. Perguntei um dia a minha mãe porque a santa chorava e ela me explicou que Nossa Senhora da Salete chora pelas pessoas tristes que vivem na terra. No alto do monte St Clair, na cratera desse antigo vulcão, vi Nossa Senhora chorando lagrimas de fogo sobre minha tela. A CHUVA TRAZ COISAS DO AR No terceiro dia, tive que compor com o ar. Eu já havia experimentado com o ar deixado um quadro enrolado numa arvore nos Pirineus e outro encima da uma arvore na Amazônia. Só que desta vez eu tinha que compor, durante uma hora apenas, com esse elemento. Ao chegar no átrio da igreja de St.Louis, embaixo de uma Virgem coroada, fui recebida por um vento muito forte. A tela, presa ao um pequeno varal, voava como um tecido muito fino. Percebi nesse momento que o trabalho do ar tinha como finalidade tirar o excesso. Até eu compreender isso foi difícil: eu rezava, falava palavras soltas e emitia mantras, jogando o meu ar também na tela. Ao jogar meu vento interior sobre a tela, senti que eu também estava tirando o excesso, que aquela hora estava me purificando. No final peguei a tela e comecei a bater com ela no chão, e a agitar no ar, como um estandarte. Queria que o ar penetrasse nela e que ela descobrisse novas formas. O necessário se revelou porque perdi o medo de estragar a tela. A TERRA: REPOUSO E RESSURREIÇÃO Eu pensei que o trabalho com a terra seria mais tranqüilo porque estaria lidando com o elemento que conheço melhor. Tinha levado a picareta e a pá: tudo que tinha que fazer era cavar a terra, estender a tela e cobri-la novamente.. Voltei ao terreno ao lado da capela de Nossa Senhora de La Salete, aonde eu havia trabalhado com o fogo. Era domingo e todo o trabalho começaria depois da missa das nove e meia. O imprevisto era que havia amanhecido com muita chuva. A cidade de Sète estava em alerta laranja, com ventos muito fortes e o mar estava de ressaca.Quando chegamos ao alto do Monte de St. Clair a chuva caia torrencialmente. Éramos nove pessoas, Joe, Laurence, Paula, um casal, um pai que veio com o seu filho pequeno (com uma pá de plástico para ajudar) Jean Jacques e eu. O vento e a chuva batiam com muita força mais senti que isso iria fazer bem a alma. Todos me ajudaram para que tudo acontecesse o mais rápido possível. Tínhamos que cavar um buraco de três metros num terreno salpicado de pedras... No momento que começamos a cavar, a chuva acalmou um pouco permitindo que pudéssemos trabalhar. A terra é dura, as ferramentas são pesadas: o tempo da terra é um tempo que requer muita força e dedicação do trabalhador. Trabalhamos muito até conseguir cavar o buraco e plantar a tela. No exato momento que estávamos terminando a chuva voltou mais forte ainda. Terminamos correndo e nos abrigamos em- baixo de uma cobertura que havia no terreno, totalmente encharcados. Nos despedimos todos com muito amor, mais com muita presa também, já que a chuva batia muito. Deixei então ali, no terreno molhado, minha tela por um ano. Meu projeto é de recuperá-la no próximo festival de performance. Verei assim como a terra da capela de Nossa Senhora de Salette tratará minha tela que nasceu da água, do fogo e do ar. Clique nas imagens para ampliar
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